outro sentido

 

O mercado engolindo o Ensino Superior

 

 

 

“Estamos assistindo impotentes ao aviltamento da condição dos professores universitários devido ao excesso de profissionais no mercado e devido à mercantilização do ensino superior. Houve nos últimos anos uma proliferação inconsistente de instituições privadas de grandes redes, cujo único objetivo é o lucro e que se destinam a absorver estudantes de média e baixa renda, sem acesso à universidade pública. Os donos e administradores dessas instituições ‘desconhecem’ os mais básicos princípios da pedagogia e oferecem um tipo de ensino que acreditam ‘até bom demais para seus alunos de segunda e terceira classe’.”

 

As palavras acima são de Anna Gicelle Garcia Alaniz, professora da USP, e estão em artigo de sua autoria na revista Caros Amigos deste mês. A doutora em História Social enumera e analisa inúmeros aspectos da proliferação dos cursos privados de Ensino Superior. O surgimento crescente dessas escolas é fruto da política do governo Lula de pagar vagas nas instituições privadas ao invés de fomentar o crescimento da Universidade pública. O resultado é uma diversidade de etnias, credos, conhecimento e outros aspectos sendo tratada como segunda ou terceira classe na instituição privada enquanto poderia ser muito melhor trabalhada na pública, fomentando ainda mais conhecimento.

 

Parece que a mão do Estado, no Brasil, só é capaz de produzir mais desigualdade, mais injustiça, mais preconceito. Tudo o que é demais, menos.    

 



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Escrito por o transeunte às 20h40
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outro sentido

 

Cesare Battisti. Terrorista?!

 

O movimento midiático foi uníssono. Todos os grandes veículos de comunicação do país noticiaram a prisão do antigo militante italiano de extrema-esquerda Cesare Battisti como um trunfo da Polícia Federal no último dia 18/3. Um perigoso terrorista preso, divulgavam os diários, telejornais, radiojornais e sítios na internet. Muitos contaram que ele fugiu da Itália há 26 anos e permaneceu na França até o fim do governo de François Miterrand, que se negava a extraditar ativistas italianos de esquerda. Battisti foi julgado, em 1993, pela Justiça de seu país, à revelia, após um processo contraditório (esse fato também foi amplamente ignorado pela mídia: julgamento sem defesa não é justo). Na ocasião, acabou condenado à prisão perpétua pela participação em quatro assassinatos entre 1978 e 1979, entre eles o de um joalheiro milanês. Ele sempre negou os assassinatos.

 

Uma matéria que subverteu tudo que havia sido noticiado até agora é uma espécie de manifesto escrito pelo jornalista Rui Martins, na versão online da revista Caros Amigos. Vale ler do início ao fim. Novas informações e um pedido para que o “terrorista” não seja extraditado.

 

“Além da questão humanitária, pois os crimes dos quais é acusado ocorridos no começo dos anos 70, normalmente já teriam sido prescritos, os crimes dos quais é acusado fazem parte de uma outra época da história política européia – o das Brigadas Vernelhas, cujas manifestações ocorreram tanto na Alemanha como na Itália. Uma das últimas militantes alemãs acaba de ser indultada depois de trinta anos de prisão. Eram jovens idealistas de origens diversas motivados pelo desejo de mudar o mundo e envolvidos na má opção da luta armada, sem terem percebido ser impossível por falta de estrutura chegar aos seus fins por esse caminho”, escreve Martins.

 

Nenhum outro meio de comunicação havia tocado no assunto das Brigadas Vermelhas e no fato de que um crime que ocorreu há 26 já estaria prescrito, além do que, no Brasil, ativistas com características semelhantes às de Battisti foram, inclusive, anistiados. Exemplos de Fernando Gabeira, recentemente alçado a paladino da ética pela revista Veja, e Franklin Martins, futuro ministro de Comunicação Social do governo Lula.  Eles estão entre os esquerdistas que seqüestraram um diplomata estadunidense, em 1969, pedindo a libertação de militantes aliados. Ademais, Battisti mantinha a si e sua família (tem esposa e duas filhas), nos últimos longos anos, trabalhando como escritor e até porteiro. Ou seja, não incomodava ninguém.  

 

Estamos avisando: falta massa crítica à mídia brasileira, de maneira geral. É preciso uma análise mais cuidadosa antes de sair rotulando de terrorista, bandido, baderneiro, vândalo etc todo mundo que é preso ou que não concorda com o positivismo de “ordem e progresso” que as polícias seguem. Sorte nossa que ainda existem veículos que ofertam uma análise mais crítica a respeito destas questões. Louvemos Caros Amigos, Carta Capital, Brasil de Fato e a onda de blogs e sítios que estão surgindo todos os dias com o compromisso de informar, se colocar e não manipular. Abaixo o jornalismo canalha.      

 

 



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Escrito por o transeunte às 20h39
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nosso lado da calçada

Nóis já sabia

O leitor do blog já sabia: a crescente repressão policial acabaria em problema. Só não se sabia muito bem quando. Sinceramente, o transeunte achou que demoraria um pouco mais. Mas não é que se surpreendeu quando o jornal Correio do Povo noticiou no último final de semana e ainda colocou uma foto na capa denunciando os excessos da Brigada Militar nas abordagens.

Na edição de 18/03 do jornal, um brigadiano dá um tapa no rosto de um rapaz negro. Aparentemente, o excesso não se justifica, já que o cidadão estava em posição descansada. Outros dois homens morenos também estão sendo abordados na imagem. Não é coincidência. O perfil do presidiário gaúcho é negro, jovem, pobre e com baixa escolaridade.

Tapão na cara: o estilo BM que já cansamos de ver noticiado 

O transeunte reitera a opção de não ser contra algumas abordagens policiais, tampouco ações estratégicas de repressão ao crime organizado. No entanto, o blog é terminantemente contrário à repressão total (o famoso tolerância zero) a todo e qualquer tipo de crime como ÚNICA salvação e resposta de combate à violência. O governo Yeda, por enquanto, tem manifestado esta opção sombria ao cortar ainda mais os repasses de orçamento à educação e saúde, por exemplo, e dar prioridade à ação policial como forma de diminuir a criminalidade.

A manobra é eleitoreira e oportunista, diga-se de passagem. Está fadada ao fracasso. Os policiais militares já começam a perceber seus enganos. Semana passada, na rádio Guaíba, o presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do RS se manifestou contrário ao aumento das pressões por resultados entre outras exigências. Preocupa-se com o aumento do trabalho e das situações de perigo e a manutenção de um salário muito baixo. Enquanto isso, os PMs começam a ser caçados com mais vontade pelos bandidos, sedentos por uma guerra. O secretário Bacci insinuou que ela aconteceria e quem está no front começa a se preocupar. Ainda mais porque com os vencimentos de um brigadiano só é possível a eles serem vizinhos dos inimigos. Situação dramática.

Nesses próximos quatro anos, acredito que a parcela da população hoje apoiadora do governo se oporá ao sistema porque violência policial só gera mais violência. Quem paga o preço, sempre, é a sociedade como um todo que está vendo seus jovens pobres cada vez com menos perspectivas. O crime se torna o caminho mais fácil e alguns, inevitavelmente, optam por ele. São os desempregados-empregados-do-varejo-da-venda-de-drogas de que o amigo wu, do sítio ponto de vista (www.pontodevista.jor.br), tanto fala. E assim engrossam as estatísticas que nos dizem: os homens na faixa dos 18 aos 25 anos são os que mais morrem devido à violência.

 



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Escrito por giu carpes às 10h24
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nosso lado da calçada

Elogiável, mas...

Surpresas sempre me agradam sobremaneira. Na edição de 18/03 de ZH uma matéria elogiável. Isso mesmo, elogiável. Moisés Mendes conta A travessia depois da delinqüência de um dos 900 adolescentes e jovens adultos já acolhidos pelo Programa de Prestação de Serviços à Comunidade da UFRGS. O programa conhecido pela sigla PSC aplica, em convênio com a prefeitura da Capital, medidas socioeducativas determinadas pela Justiça a adolescentes infratores. Em abril, completa 10 anos.

Os adolescentes ajudam a organizar bibliotecas, auxiliam na digitação de textos, trabalham na rádio da universidade. Aprendem a lidar com computador e a fazer brinquedos de sucatas e participam de oficinas de música, desenho, pintura, teatro e debates de filmes. Visitam museus e eventos.

Até aí a iniciativa é mesmo muito boa e a matéria até pode ser vista com um olho na teoria do jornalismo público – que se caracteriza pela intenção de não apenas se servir dos fatos sociais no que eles apresentam de dramático, mas agregar aos valores/notícia tradicionais elementos de análise e de orientação do público quanto a soluções dos problemas, organizações neles especializadas e indicações de serviços à disposição da comunidade.

Mas, ao menos, uma crítica e uma indagação o transeunte se permite fazer. O trabalho dos jovens não é remunerado, muito parecido com o que a governadora Yeda Crusius pretende implantar de forma maciça nas cadeias gaúchas, com apoio de grandes empresas que irão se utilizar dos apenados gastando muito menos do que gastariam com um funcionário aqui fora. Qualificação para os apenados é importante, trabalhar é necessário, mas fica a pergunta: como esses indivíduos e suas famílias, rodeadas e afetadas pela miséria que afeta grande parte da população carcerária e seus parentes, fazem para sobreviver se não são pagos dignamente?



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Escrito por giu carpes às 10h20
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outro sentido

Os sem-teto na mídia

Vale a pena acompanhar a saga dos sem-teto da avenida Prestes Maia, região central de São Paulo, na edição on-line da revista Caros Amigos (www.carosamigos.com.br) deste mês. A publicação acompanha a ocupação, desde 2002, de um edifício na área por cerca de 1600 moradores de rua e o que suas mobilizações vêm causando em prol da causa de permanecerem no prédio.

O edifício deve cerca de R$ 5,8 milhões em IPTU e está avaliado em R$ 7 mi pela Caixa Econômica Federal. A prefeitura municipal de São Paulo propôs na Justiça arcar com o pagamento da diferença e garantir moradia para as 468 famílias que ocuparam o local em 2002. No entanto, a Justiça, que decidira anteriormente pelo pagamento integral, agora deu reintegração de posse ao proprietário do prédio. Mais uma prova de que, por todos os cantos desse país, a propriedade privada está acima do bem-estar social. Lamentável.



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Escrito por giu carpes às 10h18
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pelas esquinas

As mazelas da Fase

Fundação de Atendimento Sócio-Educativo. O nome leva a crer que essa seria uma instituição baseada no velho Estado de bem-estar social. No entanto, a situação para quem entra ali pela primeira vez deve levar exatamente ao inverso. Os jovens em tratamento para ressocialização ficam trancafiados em andares sujos e, por que não dizer, insalubres. Do sol que brilha intensamente lá fora passam apenas alguns poucos raios pelas janelas gradeadas e pequenas. Há portas cadeadas e grades por todos os lados, inclusive nos seus quartos e nas salas de aula. Na pequena sala de revista que antecede o lugar onde os apenados permanecem, uma lista do que as visitas podem levar: dois pacotes de bolacha doce, dois de bolacha salgada e 10 maços de cigarro. 

O transeunte está visitando a Casa Padre Cacique com alguns colegas de faculdade, levados pela necessidade de realizar um trabalho conjunto com a gurizada. Um velho prédio cuja estrutura padece de melhores cuidados. Infiltrações, vestígios de uma pintura há muito esquecida, portas enferrujadas. O local é destinado a menores que cometeram crimes leves, tais quais roubar uma carteira.  

Embora as dificuldades, os que trabalham nesse órgão montado em antigos prédios na avenida Padre Cacique, em Porto Alegre, buscam desempenhar seus papéis, apesar das condições dadas para isso serem mínimas. Artemita, monitora há 38 anos, diz que busca sempre ensinar a ler cada jovem analfabeto que entre na Fundação. Tenta fazer o mesmo com as mães dos rapazes que, em bom número, também sofrem com essa dificuldade.  

No Olimpo, distante dali, autoridades como boa parte de nossos congressistas, no entanto, parecem ter perdido a fé nessas instituições. Transitam no Congresso Nacional várias leis que visam endurecer as penas e o tratamento aos menores delinqüentes, no mínimo 90% deles negligenciados de alguma maneira pelos pais ou pelo Estado, segundo afirmação do juiz de direito João Batista Saraiva, consultor da ONU para o tema e titular do juizado regional da infância e juventude de Santo Ângelo.

A mídia em geral corrobora com a opinião de parlamentares como o senador Antônio Carlos Magalhães. Para ele, essas crianças e adolescentes infratores devem ir mais cedo para a cadeia, aos 16 anos. Globo e afins têm noticiado a violência de forma poucas vezes vista até aqui. Colocar na televisão, no rádio ou nos jornais o caso de algum jovem que enveredou pela rota do crime está virando moda, gerando medo e reações de indignação da sociedade menos avisada que normalmente clama por justiça. E justiça para estes últimos citados é mesmo colocar jovens infratores na cadeia comum por anos a fio, convivendo ainda mais diretamente do que o fazem em seus lares com criminosos violentos e sem chance de recuperação, dada as condições selvagens que um presídio oferece a seus “hóspedes”.

Condições ruins que, como podemos ver, a Fase também apresenta. Descaso, desinteresse, negligência do Estado, como disse Saraiva? Segundo o diretor da Casa Padre Cacique, dentro da Fundação, sem dúvida. Ele ressalta que o governo atual cortou pela metade os repasses fazendo um trabalho que já era difícil ficar praticamente impossível. Sorte deles que ainda existem instituições interessadas em desenvolver parcerias.

Enquanto isso, não muito longe dali, a polícia aborda motoristas. Mais uma blitze. Mais detenções para o já entupido sistema prisional e para as instituições de atendimento sócio-educativo. Esse círculo vicioso, como já previa o tão citado Wacquant, se auto-alimenta e violência gera mais violência. A conta quem paga é a sociedade, que vê um sem-número de menores enveredando pelo rumo do crime perpetuando o ciclo. A maior vítima, o sociólogo francês não tem receio em afirmar, é a juventude.      



Categoria: pelas esquinas
Escrito por giu carpes às 10h52
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Nosso lado da calçada

 

Agendamento mal intencionado

 

É fato consumado para os estudiosos do jornalismo que a mídia pauta os governos e tem papel fundamental na formação de políticas públicas. A teoria do agendamento, inicialmente proposta por McCombs e Shaw, tem inúmeros desdobramentos e um dos mais nobres talvez seja a de alertar o poder público e a população para problemas da sociedade e fomentar o debate para possíveis soluções. Tudo muito bonito, não fosse a má intenção de meios de comunicação como o jornal dos Sirotsky.

 

Na edição de quarta-feira (07/03), alertam para os perigos que o “setor florestal’ (sic) estaria correndo com a movimentação da via campesina em torno de quatro áreas de plantação de eucaliptos, uma delas em Eldorado do Sul. Na foto de capa, pode-se ler nas faixas dos camponeses mulheres sem terra na luta por soberania alimentar contra o agronegócio e terra brasileira para produzir alimentos, não desertos verdes. Reivindicações muito justas, considera o transeunte e, certamente, ampla parcela da comunidade ambientalista.

 

Pois hoje o jornal Correio do Povo noticia a ação do governo estadual e suas brigadas no intuito de formar barreiras visando a encontrar participantes da Via Campesina em trânsito rumo à área ocupada. Informações dão conta de que há ônibus vindos do interior, sem aparente ligação com os movimentos camponeses sendo parados e minuciosamente revistados nas estradas que levam à região metropolitana e, principalmente, às plantações de eucaliptos. Em carro vindo de Carazinho não havia integrante algum de qualquer movimento social. Sabe-se lá o que aconteceria se houvesse.

 

Segundo indicam as próprias fotos dos jornais, a manifestação é pacífica, apesar da manchete da página 4 de ZH de quarta-feira estampar Eucaliptos sob ataque. Uma manchete menor, na página 5, anuncia o que pode ser uma iniciativa trágica: BM adota precaução, mas promete rigor contra as ações. Imagem bem aberta mostra os manifestantes sob a sombra das árvores da discórdia. Não há destruição, apesar da ocupação de área de propriedade privada.

 

Defender a propriedade, aliás, é o principal papel das forças policiais no país. Sob a ótica de um Estado cada vez mais sob influência de políticas “sociais” neoliberais, melhor antes ter do que ser. E assim movimentos verdadeiramente sociais que empunham a bandeira de causas justas acabam sendo criminalizados pela imprensa e, posteriormente, por boa parte da sociedade. Ambientalistas ainda são colocados no mesmo saco criminalizador, aprofundando as injustiças.

 

Zero Hora ainda noticia que os grupos camponeses desdenham dos investimentos e empregos criados pelas papeleiras. Elas planejam aplicar mais de US$ 4 bilhões no Rio Grande do Sul em projetos semelhantes aos de Eldorado do Sul, Rosário do Sul, São Francisco de Assis e Pinheiro Machado, fonte das manifestações. Com muito menos dinheiro, os governos poderiam fazer uma reforma agrária e substituir cada funcionário de empresas de celulose por 10 produtores rurais familiares. Isso se chama inclusão. Isso não interessa à mídia nativa que depois vem fazer alarde sobre o aquecimento global, blá, blá, blá. Não se preocupa com o ambiente fomentando o plantio de desertos verdes e depois vem reclamar das catástrofes ambientais para que tanto colabora. Minha avó, que Deus a tenha, mandaria essa imprensa que se esconde atrás do rótulo da imparcialidade plantar batata. Isso caso usasse os mesmos “óculos” de o transeunte, claro.    



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Escrito por giu carpes às 18h48
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Nosso lado da calçada

 

Manipulando todo dia

 

Perseu Abramo, no seu livro Padrões de Manipulação na Grande Imprensa (2003) fornece uma análise no mínimo desmistificante sobre a imprensa de referência do Brasil. Segundo o jornalista e sociólogo, uma das principais características do jornalismo praticado no país, na atualidade, é a manipulação da informação:

 

“O principal efeito dessa manipulação é que os órgãos de imprensa não refletem a realidade. A maior parte do material que a imprensa oferece ao público tem algum tipo de relação com a realidade. Mas essa relação é indireta. É uma referência indireta à realidade, mas que distorce a realidade. Tudo se passa como se a imprensa se referisse à realidade apenas para apresentar outra realidade, irreal, que é a contrafação da realidade real. É uma realidade artificial, não-real, irreal, criada e desenvolvida pela imprensa e apresentada no lugar da realidade real.” , diz ele nas páginas 23 e 24.

 

Ele não considera que a imprensa de referência manipule todo material jornalístico produzido e sempre o faça. Observa que se tal fosse a sistemática, o fenômeno seria autodesmistificador e autodestruidor por si mesmo, com importância extremamente reduzida, senão insignificante, gerando um total descrédito por parte da sociedade.

 

Pois o nosso “querido” jornal ZH está se superando na “arte” desmascarada por Abramo. Até o sétimo dia do mês de março foram exatamente quatro capas com sensacionalismos sobre violência e matérias esquentadas diretamente do forno da assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública. Não fizeram mais porque as tempestades trataram de causar estragos tremendos no RS, matando algumas pessoas inclusive, e tirando o protagonismo da criminalidade das capas de Zero Hora por exatos dois dias. A outra manchete de capa que completou a primeira semana do mês fez uma previsão sobre a qual ainda não temos opinião formada: a população do Estado irá encolher a partir de 2024, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. É bom irmos nos preparando para os temíveis efeitos desse fenômeno, causado por uma possível baixa fecundidade das gaúchas. Será que até lá já teremos menos criminosos? Deixa para lá.

 

O fato é que o dia 2/3, já criando um costume, foi o momento encontrado para louvar as iniciativas policiais, divulgando as estatísticas do crime em fevereiro. Claro que ocorreram quedas na comparação com o mesmo mês do ano passado, todas atribuídas às ações de repressão da BM, num estudo antropológico surpreendente. Estou ironizando, frise-se. A matéria pode ser facilmente destruída com as mesmas alegações contidas numa edição recente de o transeunte. Pouparemos o retrabalho do blog e do leitor, portanto.

 

A imprensa riograndense comete um grave pecado quando poderia estar realmente trabalhando para ajudar a resolver a situação. Pauta-se apenas pelo sensacionalismo do tema da violência e perde a oportunidade de trazer à baila uma abordagem mais ampla, enfocando possíveis políticas públicas sociais e criando uma maior conscientização sobre estas. Falha e, assim, colabora para a perpetuação do problema na sociedade. Em 2024, o motivo do encolhimento da população gaúcha pode não ser bem a baixa fecundidade das gaúchas, mas um aumento da taxa de mortes. Se a abordagem da mídia continuar como está, não duvido.

 



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Escrito por giu carpes às 18h47
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