"É ilusão imaginarmos que a polícia vencerá a guerra contra o tráfico. Basta olharmos para os americanos, que investem US$ 10 bilhões anuais para manter o mais organizado aparato policial de repressão que se tem notícia: são os maiores consumidores de drogas ilícitas do mundo."

Drauzio Varella, em artigo na Folha de São Paulo, caderno Ilustrada de 17/04/04.

 



Categoria: Citação
Escrito por giu carpes às 17h51
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 Yeda declara guerra contra o crime na ZH de 04/01

 

Segurança: o maniqueísmo simplista da mídia e do governo estadual

 

A mídia e, conseqüentemente, o governo gaúchos – exatamente nesta ordem – elegeram 2007 como o ano da segurança. Esse assunto é, realmente, uma preocupação da população. No entanto, combater a criminalidade através do "jeito novo de governar" é, simplesmente, aumentar a repressão e o policiamento nas ruas. Nada de muito novo, diga-se de passagem. Iniciativas similares àquelas colocadas em prática em São Paulo pelo ex-governador Geraldo Alckmin e cujo reflexo mais grave foi a expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC).

 

Não é de se surpreender, portanto, que a secretaria de Enio Bacci (PDT) será uma das que receberá maior aporte de recursos do Executivo estadual, suplantando de longe outras pastas também importantes na diminuição da pobreza e da exclusão social – e, por conseqüência, indispensáveis ao combate da criminalidade –, como a da Educação e a da Justiça e Inclusão Social.

 

O investimento em repressão já vem dando seus resultados cruéis. Segundo informações do jornal Zero Hora, a Brigada Militar já deteve, nos primeiros 25 dias do ano, 3.280 pessoas. Média de 131 detenções diárias através de barreiras e operações em todo o estado. O número de prisões é 65,3% maior em relação ao mês de janeiro de 2006. Para se ter uma idéia do que representa, essa quantidade é mais do que o dobro da capacidade do Presídio Central, em Porto Alegre, 1.565. Atualmente, no entanto, o PC amontoa 3.760 detentos em suas abarrotadas celas.

 

Não há prova alguma de que aumentar a repressão e o número de prisões diminua a criminalidade. A afirmação do sociólogo Loïc Wacquant se confirma quando analisamos a administração do republicano Rudolph Giuliani - do mesmo partido de George W. Bush - à frente da prefeitura de Nova York a partir de 1994. Segundo Wacquant, a criminalidade já despencava desde 1990 – os assassinatos simplesmente caíram pela metade, enquanto os atentados ao patrimônio diminuíram 25% - sem que seja imputável a qualquer inovação policial. Mesmo assim, o governo de Giuliani resolveu ser o precursor da política de tolerância zero, sucesso midiático-reacionário, e exatamente por isso amplamente difundida pelo mundo todo. Ela foi introduzida pela primeira vez no Brasil por Joaquim Roriz, em 1999, quando este governava o Distrito Federal. Depois, foi abraçada pelos tucanos paulistas como tábua de salvação contra a criminalidade. Quatro anos depois, dá provas de que não funciona: o crime e o sentimento de insegurança em São Paulo – o modelo que o RS vem adotando – são maiores do que nunca.

 

É hora de aproveitar o foco na segurança e produzir soluções menos simplórias e mais avalizadas por estudos sociológicos da criminalidade, da miséria e da exclusão social. O modelo de community policing* de outras cidades estadunidenses como Boston, Chicago e San Diego pode ser uma alternativa, conjugada com outras iniciativas de longo prazo que envolvam melhoras nos níveis de educação, saúde e, conseqüentemente, de igualdade social. Através desse sistema de policiamento, junto a práticas de conscientização de "primeiro mundo", San Diego teve resultados semelhantes aos de Nova York no período 1993-96, mas com uma diminuição de 15% no número de detenções, enquanto em NY o aumento foi de 24%, atingindo a cifra astronômica de 314.292 pessoas presas em 1996, sendo 54 mil devido ao uso de drogas.

 

A polícia comunitária é uma iniciativa relativamente simples, mas que funciona comprovadamente e não de forma manipulada através de uma mídia sempre àvida à simplificação maniqueísta e aos lampejos reacionários. O maniqueísmo é lógica que mexe nos instintos das pessoas, porém é insuficiente para resolver problemas complexos tal como é a violência urbana no Brasil. Para esta, instintos vingativos tendem tão-somente a potencializá-la. Perdemos todos que temos que conviver com ela nas ruas.

 

* "Polícia de proximidade": polícia "à pé", presente e visível no bairro e integrada à população. Nesse caso, a palavra integrada não quer dizer simplesmente em meio à população, mas sim legitimada nos moldes da resposta de Caco Barcellos ao jornal Brasil de Fato e disponibilizada aqui no transeunte bem abaixo.



Categoria: nosso lado da calçada
Escrito por giu carpes às 15h58
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Um habanero-síntese

 

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez já afirmou que, em seus livros, "é imprescindível que haja uma boa história, com um pouco de sexo, de reflexão, de análise, de loucura, e de personagens que vivem em situação-limite. Um pouco de desilusão mesclada com fúria e rebeldia". Em O Rei de Havana (Companhia das Letras, 1999, 224 páginas), o autor atinge o ápice dessa estruturação na luta de Rey, personagem principal com ares autobiográficos, pela satisfação de suas necessidades básicas: comida e sexo, ou seja, a sobrevivência em meio à miséria em que vive o povo da ilha de Fidel.

 

Em O Rei de Havana, Gutiérrez destaca a situação caótica e aterradora de que é testemunha na capital cubana. Não há trabalho fixo, condições de higiene, transporte eficaz ou comida suficiente. Os habaneros, como são chamados os moradores da cidade, simplesmente tentam se manter vivos até o dia seguinte e, nessa rotina, perdem totalmente o senso do que é certo ou errado, bom ou mau. Esmolar, trocar sexo por comida ou roubar são iniciativas corriqueiras para quem não quer acabar se tornando alimento para os ratos que infestam a podridão do bairro do Malecón e tantos outros.

 

O jovem Rey é figura-síntese dessa vida bruta e animalesca a que são submetidos os habaneros. O apelido de "Rei de Havana" não é de graça: ele descobre no sexo um talento nato para a sobrevivência e faz da loucura proporcionada pelas lidas carnais seu ganha-pão. Tira seu sustento dos amantes, sejam mulheres velhas e com alguns bens ou travestis que se mantêm também trocando o corpo por dinheiro. Nessa realidade, alterna momentos de certa prosperidade – quando está "parasitando" alguém – e penúria total – nos meios-tempos de seus relacionamentos. A certeza que fica é de uma vida sem espaços para a reflexão ou o lazer. A correria, que em países capitalistas é em busca de mais dinheiro para a obtenção de bens e luxos, é tão-somente para saciar a fome e a luxúria.

 

Abusando dos diálogos curtos e de uma linguagem crua, na tradução sem reparos de José Rubens Siqueira, Pedro Juan Gutiérrez pode levar o leitor brasileiro de O Rei de Havana a um choque moral. A miserável realidade cubana não está muito distante da vivida por vasta parcela da população pobre do Brasil. A falta de componentes básicos para uma vida digna e a impressão de que não há perspectivas para um futuro menos soturno são semelhanças indiscutíveis. No entanto, nas favelas daqui, os cidadãos têm de conviver com a lógica do crime organizado. Em Cuba, é o regime de Fidel que dá as cartas.



Categoria: outro sentido
Escrito por giu carpes às 14h54
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Elites incompetentes

 

A mídia gaúcha, leia-se RBS, tem consciência do que está dizendo Jorge Gerdau, tão admirado dentro da empresa dos Sirotsky? Se tem, por que acredita que o fim da criminalidade no estado do RS virá tão-somente através da ação repressora e também violenta da Brigada Militar? Santa ingenuidade a minha... Esqueci que o que vende jornais, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é medo e violência, como disse o iraniano Reza Aslan à edição online de janeiro/07 da revista Caros Amigos. Acrescentaria a elite midiática à afirmação de Gerdau. Ela tem muita culpa no cartório. Principalmente, por ser a principal responsável pela não-democratização da informação. Monopoliza os meios de comunicação e transmite pensamento único. o transeunte luta pela pluralidade de opiniões.   



Categoria: nosso lado da calçada
Escrito por giu carpes às 15h28
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"O crescimento médio de 2,5% ao ano, nos últimos 20 anos, equivale a um assassinato em massa, de responsabilidade das elites políticas, empresariais, acadêmicas e sindicais."

Jorge Gerdau Johannpeter, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça. Folha de São Paulo de 27/01/07, pág. A6. O executivo da Gerdau S/A fala em assassinato porque acredita que o baixo crescimento é a mãe da criminalidade que tomou conta do Brasil em 20 anos de medíocre desempenho econômico.  

 



Categoria: Citação
Escrito por giu carpes às 15h12
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Criatividade

 

Alguém seria contra a política de segurança de Caco Barcellos? Falta criatividade aos nossos governantes e seus subalternos. Repressão exagerada, policiamento ostensivo, assassinato de suspeitos e truculência contra demais civis que nem suspeitos são, nada disso é novidade. A política de segurança do governo Yeda já fracassou em São Paulo, de onde foi importada, haja vista a inédita expansão do PCC no estado. O levante organizado do crime teve seu auge em maio/2006. Todos lembram o que aprontou o grupo chefiado por detentos no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), próxima importação tucana a campear pelos presídios gaúchos.    



Categoria: nosso lado da calçada
Escrito por giu carpes às 14h42
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"Plenos poderes ninguém tem, nem o Presidente da República. Mas vamos imaginar que sim. Minha prioridade máxima seria a defesa da vida, em vez da defesa do patrimônio, como faz a nossa polícia. Estimularia as experiências de polícia comunitária, que daria legitimidade às ações repressivas. Os policiais só agiriam a partir da solicitação dos líderes de cada bairro. Acabaria com os inquéritos policiais e transformaria todas as delegacias em prédios de Justiça, chefiados pela comunidade de cada área. Proibira a atividade da indústria de segurança. Promoveria uma distribuição de renda nos quadros da polícia - os salários mais altos dos oficiais seriam transferidos para o pessoal de rua. Os soldados não poderiam ganhar menos de R$2 mil por mês. Isso poderia ser feito hoje, sem que a sociedade pagasse um centavo a mais do que paga pela atual estrutura de segurança. No combate às drogas, minha prioridade seria a cachaça, cujo consumo representa uma grande tragédia nacional. Impor taxas elevadíssimas à indústria de álcool e exigiria delas responsabilidade com a saúde pública. Minhas metas de médio e longo prazo seriam a taxação das grandes fortunas. Quem acumulou muita renda nos últimos vinte anos teria de pagar a conta da probreza causada no mesmo período. Promoveria campanhas e debates públicos para explicar ao povo que existe uma associação direta entre injustiça econômica e violência. E reduziria drasticamente os impostos, dando incentivos às empresas que aumentassem os salários de seus trabalhadores."

Caco Barcellos, jornalista da rede Globo e autor dos livros Abusado e Rota 66, entre outros. Edição nº 20 do jornal Brasil de Fato, de julho/2003, ao responder o que faria se fosse Ministro da Justiça.

*material coletado no site Ponto de Vista (www.pontodevista.jor.br



Categoria: Citação
Escrito por giu carpes às 14h20
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????

 

Os governadores nordestinos não deveriam se preocupar mais com a miséria, a desigualdade social e a violência que delas decorrem, endêmicas naquela região?



Categoria: pergunta que não quer calar
Escrito por giu carpes às 16h30
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"Ações de segurança. Na medida em que o Sul e o Sudeste se organizam e se articulam para combater a criminalidade, os bandidos vão migrar para cá."

Wellington Dias, governador do Piauí. Revista Istoé de 24/01/07, pág. 30, ao dar um exemplo das preocupações conjuntas dos governadores da região Nordeste.



Categoria: Citação
Escrito por giu carpes às 16h27
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O nosso papel

 

A situação que impera no jornalismo atualmente exclui a população em geral – mas, principalmente, os pobres – do protagonismo social. A imprensa de referência não tem interesse em dar voz a essas pessoas. Tudo indica que deve continuar assim ainda por muito tempo. Esse contexto abre caminho para que o Estado imponha, com o aval da mídia, um tratamento de criminalização da miséria e da sua maior vítima, o jovem sem seus direitos mínimos de educação, saúde, moradia, cidadania respeitados e com raras expectativas de sobrevivência senão no crime. É essa lógica que está em marcha atualmente com o "jeito de novo de governar" às vésperas de completar um mês. Sob o beneplácito da imprensa gaúcha, claro. 

 

Essas políticas são particularmente cruéis em países onde a desigualdade social atinge patamares elevadíssimos como o Brasil, segundo o sociólogo francês Loïc Wacquant, no livro "Prisões da Miséria" (2001). O autor lembra tempos de repressão do passado brasileiro como a ditadura militar para afirmar que "desenvolver o Estado penal para responder às desordens suscitadas pela desregulamentação da economia, pela dessocialização do trabalho assalariado e pela pauperização relativa e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano (...) equivale a (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres." (p. 10).

 

Dessa forma, o transeunte busca se contrapor a essa lógica excludente. O meio para isso é simples. Seremos um ponto de divulgação da realidade das ruas através dos posts das categorias pelas esquinas e no olho da rua. A primeira trará reportagens exclusivas sobre o que se passa pelas ruas enquanto a segunda será recheada de ensaios fotográficos. Iremos a campo, investigaremos (não no termo policial da palavra, obviamente), traremos histórias e situações para debate. Cremos que essa é a tarefa precípua do jornalismo. Será o trabalho incansável do transeunte. Nas ruas, dando voz a quem normalmente não tem. Vez por outra, não nos omitiremos também em manifestar nossa opinião quanto a temas que venham a afetar o povo das ruas, ou seja, todos nós. Esse será o motivo dos posts na categoria nosso lado da calçada. Temos um lado. E não é o lado do Estado quando desrespeita o interesse público com manobras eleitoreiras e sem o compromisso republicano.

 

Ademais, a categoria de posts outro sentido trará sempre dicas culturais. Leituras, filmes, eventos, o quer que transmita alguma cultura de rua, seja essa rua calçada, asfaltada, de terra, grama, etc. Onde passa gente, passa a cultura, passa o transeunte.

 

A partir de agora, portanto, uma nova carga subversiva contra o prejuízo a quem não fecha os olhos à exclusão e ainda perde o sono com a injustiça das ruas, a nossa esfera pública. O objetivo é oferecermos uma edição semanal, toda quinta-feira. Nossos esforços estarão voltados nesse sentido.



Categoria: nosso lado da calçada
Escrito por giu...carpes às 15h00
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